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Porque está sempre onde a colocamos. E nunca a colocamos onde estamos. Da felicidade já se falou assim poeticamente tantas vezes.

Mas essa não é de longe a única questão psíquica que se desloca de onde deveria ficar e ali permanecer. O que e onde era para ser erótico e sexual tem se tornado enfadonho e o que não deveria ser ou ficar se faz morbidamente fascinante.

É muito difícil avaliar adequadamente as estatísticas de abuso sexual na infância mesmo em países desenvolvidos, mas aproximadamente 7% dos casos ocorrem em crianças entre 5 e 8 anos, 15% se fazem abaixo dos 12 anos e quase 50% antes dos 18. Mais de 75% são meninas.

A erotização precoce da infância está intimamente relacionada com o abuso na infância. Por sua vez, o abuso sexual na infância está intimamente relacionado a problemas emocionais e doenças psiquiátricas na vida adulta.

Deslocado o erotismo para o lugar antes ocupado pela ingenuidade e pela infância, o corpo infantil deixa de ser para si e passa a ser para o outro. O olho do outro, o deleite do outro, o desejo do outro.

O padrão de beleza ideal na ilhas Fiji até o início dos anos 1980 era para homens e para mulheres um corpo robusto e de formas avantajadas.

Problemas com dietas severas, anorexia nervosa e insatisfação corporal eram raros ou inexistentes antes da eletrificação e introdução dos sinais de televisão vindos dos Estados Unidos. Poucos anos depois, uma radical reavaliação negativa dos padrões culturais de beleza tomou conta dos adolescentes.

“Não queremos ser como nossas mães e nossos pais, não queremos ser assim como somos; queremos aquele corpo que vem da imagem” tornou-se o cantochão.

Dietas severas, anorexia e bulimia, insatisfação corporal e o desejo de moldar o corpo ao que se via pela televisão tomaram conta de uma larga população de jovens ainda com seus corpos em formação.

O corpo ideal está em outro corpo que não mais o meu e o corpo da minha cultura foi posto longe para me tantalizar.

Dotada de uma ironia desconcertante, a arte de Katia Canton denuncia e inquieta.

Com seus ursinhos, coelhinhos, brinquedos e bonecas que não deveriam se misturar com pênis, vaginas e barbies sensuais com botas longas.

Táki Athanássios Cordás
Médico psiquiatra, escritor e professor do Instituto de Psiquiatria da FMUSP